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“O importante é que emoções eu vivi”

Eu me tornei o que sou hoje aos 24 anos, numa noite gélida do inverno de 2010, quando minha professora de Webjornalismo me incumbiu de escrever as crônicas da sessão Ponto de Vista da revista Mais Cult. Quem já leu o livro o Caçador de Pipas do escritor Khaled Hosseini, certamente percebeu que a frase de abertura desse parágrafo é uma paráfrase à abertura do romance.

Quão bom é mergulhar em uma obra literária e deixar a história nos levar pelos cantos mais remotos da imaginação ou da relidade vivida por outra pessoa a milhares de quilômetros de distância. No caso do caçador de pipas, é interessante ficar daqui do ocidente imaginando a Cabul descrita por Hosseini: sem ruínas, sem guerra, onde as crianças podiam brincar e correr atrás de pipas. Uma Cabul bem diferente do que vemos nos jornais hoje!

Quanta emoção é ler a história dos “miseráveis” Jean Valjean, Fantine, cosetti na conflituosa França do século 19 descrita por Vitor Hugo e poder identificar em nossos dias situações de desventuras semelhantes. Que legal também é assistir a um filme ou um seriado que discuta a realidade da vida ou que nos confronte com os seus extremos, despertando em nós sentimentos os mais diversos e confusos possíveis: alegria, tristeza, prazer, ódio, repulsa. Estes dois últimos, o filme “Ensaio Sobre Cegueira” soube despertar muita bem.

Dizem que homem não chora, mas diante de um filme como O Amor é Contagioso, um livro de história envolvente como Crônicas de Uma Morte Anunciada - neste o leitor quase perde o fôlego com a narrativa que Gabriel García Márques faz de Cristo Bedoya correndo pelas ruas procurando por seu amigo Santiago Nasar para avisá-lo que os irmãos Vicario haviam anunciado que o matariam.

E o que dizer de ligar o rádio altas horas da noite e ouvir uma música que não foi você quem escolheu, mas que cala fundo em teu coração e te faz viajar pelo passado, revivendo cada momento especial de sua vida? Se outros homens não choram, não sei. Diante de tais manifestações culturais, porém, confesso que, eu, muitas vezes chorei e outras tantas sorri, mas como diria Roberto Carlos: “o importante é que emoções eu vivi”.

Cleber Caires
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Vidas secas, porém alegres

O Nordeste brasileiro é tema de muitos livros e músicas. Ambas as manifestações culturais retratam os dois lados dessa região. O grande escritor Graciliano Ramos falou em seu livro Vidas Secas da aridez e miséria presentes no sertão nordestino. Em contra partida, Gonçalves Dias ressalta em sua Canção do Exílio uma terra de belas “palmeiras onde canta o sabiá”.

Na música regional encontramos as mesmas temáticas. Em Asa Branca, Luis Gonzaga e Umberto Texeira admirados com o “braseiro” e a “fornaia” que matou a plantação, lamentam: “Por que tamanha judiação”? Já Alceu Valença, em La Belle de Jour, canta da beleza da praia de Boa Viagem onde, numa bela “tarde de um domingo azul”, passeava uma “moça bonita” de olhos azuis.

Apesar das diferenças entre o litoral e o sertão desse canto do Brasil, a esperança, a simpatia, a inteligência e o espírito descontraído são marcas inerentes aos moradores dessa região. Prova disso é que de lá saíram bons humoristas como Renato Aragão, Tom Cavalcante e Chico Anísio e intelectuais como Paulo Freire, Gilberto Freire e Jô Soares.
Se você se encontrar com um nordestino, logo o identificará pelo sotaque e pela espontaneidade em iniciar uma conversa com alguém que esteja próximo. Também o reconhecerá porque tem orgulho do lugar de onde veio e sempre faz referência ao mesmo com histórias e expressões peculiares. Todos, seja com quem trabalhei ou conheci, nas diversas cidades em que passei, admitem que gostariam de retornar à terra natal, desde que haja lá as condições necessárias à sobrevivência.

Para isso, é necessário, no entanto, que a chuva volte a cair e amoleça, não apenas o solo, mas também o coração dos políticos nordestinos que, a exemplo de seus pares nacionais, vivem de explorar a miséria alheia. Assim sendo, a “asa branca” voltará a sobrevoar aquela região e as milhares de “rosinhas” terão seus maridos novamente, para juntos criarem seus filhos com dignidade.

Cleber Caires
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Brasília de belos prédios, boa música e muita desigualdade

Dizem por aí que o Brasil é um país de todos, no entanto, mais parece terra de ninguém, ou melhor: de poucos. Essa é a dura certeza que eu tive ao visitar a capital federal. Quando se pensa em Brasília só vem à mente o chamado Plano Piloto, projetado por Lúcio Costa e dentro do qual estão plantadas as lindas obras curvas de Oscar Niemeyer.

Elas são: o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional, a catedral e os prédios dos ministérios. Quando vi essas construções de uma beleza e requinte, pensei no quanto são desproporcionais ao restante do país. Todo brasileiro deveria ter a oportunidade de conhecer a capital e, em especial, o Congresso Nacional. Estar ali por alguns minutos, acompanhado por um guia me permitiu aprender sobre a história da política brasileira e ver como funciona, - ou como pouco funciona, uma vez que muitos dos parlamentares quase não comparecem ao trabalho.

Se você já viu a “Utopia da Modernidade” certamente se pergunta o porquê de tantas curvas. Niemeyer, o centenário arquiteto responde em seu livro de crônicas: “Não é o ângulo reto que me atrai nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país. No curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein".

Porém, o Distrito Federal não é composto apenas de Lago Sul, Granja do Torto e Esplanada dos Ministérios. Que maravilha seria, se toda a Brasília de JK fosse como estes lugares! Lá também existem Arniqueira, Vicente Pires, Ceilândia, etc, onde existem pessoas humildes, ruas sem asfalto e cheias de buraco e muita violência.

Em meio a tantos monumentos públicos, Brasília também tem lindas propriedades privadas. Entre elas está o Lago Paranoá, lugar onde a elite brasiliense passeia com seus Jet Skis e surfa em suas pranchas como escreveu Natiruts na música Surfista do Lago Paranoá. A letra ainda diz mais: “Mas pra quê que eu quero o mar, se tenho o lago só pra mim”. Já que nos lembramos de uma banda, é importante ressaltar que a música é uma atração à parte na terra de Renato Russo.

Brasília foi um berço de bons grupos musicais: Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, Raimundos e de solos como Cássia Eller e Zélia Duncan. Quem visitar à Brasília se encantará com a beleza dos monumentos e com a história musical, mas certamente se decepcionará com a desigualdade social brasiliense e com a flexibilidade e as curvas de caráter dos políticos. Uma coisa terá certeza: o Plano Piloto é um protótipo do que deveria ser o Brasil, “um país de todos”.

Cleber Caires
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São Paulo além da garoa

A maior cidade do país, amada por muitos e questionada por outros, ficou conhecida como a terra da garoa. Característica que inspirou a famosa música de Alvarenga e Ranchinho, que é quase um hino paulista: “Êh, São Paulo, êh São Paulo. São Paulo da garoa, São Paulo que terra boa”.

Na boca do grupo Demônios da Garoa tornou-se popular o bairro Jaçanã, local cujo último trem saía às 11 horas. Se você desejar conhecer Jaçanã, ou qualquer outra parte de São Paulo, não se preocupe com o horário do trem, porque agora tem metrô até mais tarde. Inclusive este é um dos atrativos da cidade, retratado pelas lentes do fotógrafo Cristiano Mascaro, no livro São Paulo.

Entre tantas poesias e poetas que São Paulo inspirou está Caetano Veloso que em sua música Sampa ressalta a emoção de cruzar “a Ipiranga e a Avenida São João”. Lugar de artistas como Rita Lee, Os Titãs e também de meninas que vivem sua “deselegancia discreta” por ruas e avenidas.

Cidade de um povo que mora em apartamentos luxuosos e frequenta shopping-centers, mas onde também é possível ver um “povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas”. Caetano estava certo, é impossível andar em São Paulo sem que “alguma coisa aconteça em meu coração”.

São Paulo se desenvolveu tanto com o passar do tempo que hoje não é mais conhecida, apenas pela chuvinha, e sim pelas enchentes e todos os problemas que com elas inundam a população. Agora existem diversos sinônimos para representá-la: a maior cidade das América Latina, do autódromo de Interlagos, do Hospital Albert Einsten e do Parque Ibirapuera, etc.

Apesar de tantos monumentos e lugares que dariam belos cartões postais, nenhum deles é capaz de descrever com precisão a grandeza dessa cidade. São Paulo, acima de tudo, é São Paulo.

Cleber Caires
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